terça-feira, 5 de novembro de 2013
Domingo
Hoje é domingo, minha mãe;
te deita mais - hoje é domingo
Vizinhança, não te escondes:
faz barulho - hoje é domingo
Olha a rua, sai da toca,
um circular será bem-vindo
Faz um fogo na calçada,
põe cerveja que é domingo
Invejo uma outra alegria
desfilando com todo o seu brilho:
paletó, bíblia, vestido,
saia longa - hoje é domingo...
Me pergunto porquê tanto medo
Se tenho tantos defeitos,
por que não só mais um vício?
Desliguem a televisão
Tenham pena dos nossos ouvidos
Me liga ou me passa mensagens;
mas salva-me deste domingo
que o sino me tira o sossego
e o sono me toma os sentidos
Cuidado que a praça está cheia
e o centro ficou esquisito
A missa me deixa confuso,
e a fome que eu já não mais sinto?
Tirou-me todo o apetite
a pizza à noite, o domingo...
Me tirem, também, a gravata!
Nesse dia tão sereno,
sufoquei o meu sorriso.
Hugo César
domingo, 19 de maio de 2013
Meu Jardim
(em homenagem a poetisa Vitória Lima)
Eu,
entre as guerras que travo comigo,
desmancho muralhas, com lápis de tinta;
tropeço em calçadas, quando perco a hora;
remendo tabus,
quando quebro as cortinas,
e faço poemas sem nome,
levanto bandeiras
de cores extintas...
Reviro no peito a bagagem cigana
- ora estou de volta;
ora estou de partida,
a sós,
entre cada conclave;
no teto a fumaça, quando o trago expira,
e elejo-me a líder de cada pedaço
das minhas amadas ovelhas perdidas,
que, além do nome de batismo,
trazemos na carne outro nome de rosa:
antes de Florbela, Anayde, ou Vitória,
nós somos mulheres,
ovários,
flor-vida.
Hugo César
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Navalha
Sons, palavras, são navalhas,
já diria Belchior,
sem o mínimo de dó
nem um pingo despeito,
pois dó só se for maior
que a ressaca dos festejos,
apertada, neste peito,
com um laço de serpentina...
que a ressaca dos festejos,
apertada, neste peito,
com um laço de serpentina...
Já que assim são as palavras,
revelai, ó meu senhor;
revelai, ó meu senhor;
revelai, também, sem dó
o que vem a ser ausência,
que mata um pouco por dia,
como João Cabral diria:
- Severino de Maria,
- Aqui jazz um sertanejo
Ausência não de comida,
digo eu ainda em vida
Mas ausência das palavras
Pois quando não há palavras
é como um tiro certeiro,
uma guerra sem desfecho,
cada vez que eu não escuto
qualquer coisa do teu eco
que surgia no teu grito;
qualquer brisa, qualquer bala;
qualquer sopro em minha cara
que não teu silencio aflito
É por isso que eu te chamo,
te permito essa batalha.
Pode vir, vem com navalhas,
talha minha carne fraca
e, num ato de desespero,
corta o meu coração vivo!
Só uma coisa eu te peço:
não cega o gume da faca,
porque eu não mereço a chaga,
ou qualquer corte parecido,
que a natureza não sara...
E, se a tua voz se cala,
tudo fica em carne viva.
Hugo
César
domingo, 26 de agosto de 2012
Espelho
Tenho tudo à flor da pele
Guardo em mim tantas mulheres...
Dentro delas, quem diria:
outras tantas são meninas,
que ora vestem-se de branco,
no altar, entre outros santos,
chamam-se todas Maria.
Maria perdida no mapa
que alguns chamam de vida;
Maria de cama e de quarto
de pano, de prato e de pia;
Maria que sonha acordada
que dança pro homem da casa
e há de ser mãe um dia.
Mas, esta Maria se cansa.
Maria também é humana:
tem fome de carne viva,
nas horas que desce do altar,
esquecida da face, do nome...
E a sós, como a lua insone,
E a sós, como a lua insone,
desnuda, se mela e se brinca.
Sou novata,
sou veterana.
Cigana,
sinhá,
sou mucama.
Me chamam, também, de vadia.
Hugo César
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Silêncio
A vida é um sopro de vela
é a cera queimando
é pavio em vapor
A vida é um beijo que seca
é um abraço que aquece
quem já descansou
E, quando a vela se apaga,
não há mais remédio
nem frio nem calor;
somente o amargo que sobra
somente o amargo que sobra
o sumo do amargo
que, às vezes, transborda,
rente à boca acesa
de alguém que ficou
tostando
de chama e remorso
ardendo no escuro
dos olhos molhados
com o gosto de nunca
se vê perdoado
porque já é tarde,
e a tarde calou.
Hugo César
domingo, 10 de junho de 2012
Sonho
Eu tenho fé,
meu grande amor,
que ainda tenho um filho teu,
e pedirei, sem descansar,
ao meu bom Deus
ao meu bom Deus
pra que ele venha com a cor da cor da tua
que ele deixe a barba grande
e que o cabelo
seja do mesmo tamanho
do que cobre a tua face
até hoje, única face
que já me conhece nua
Pedirei pra que ele tenha a tua boca
que ele use as tuas roupas
que ele escute as tuas canções
que ele toque,
sobretudo,
o que tu cantas para mim
o que tu cantas para mim
porque, se depender de mim,
o violão já se parece com seus dedos
Clamarei pra que ele chegue com teu rosto
só pra eu carregar comigo
teu pedaço infinito
nos meus braços, feito andor
E, se Deus quiser,
um dia ele há de vir
um dia ele há de vir
E Deus há admitir
Me sopraram na quermesse;
todo mundo já sonhou
Me sopraram na quermesse;
todo mundo já sonhou
Porque nessas minhas preces
eu só peço o teu sorriso
como se fosse o meu terço
como se fosse o meu sangue...
até que -- mudo --
este meu coração canse
este meu coração canse
e teu verde, noutros olhos
seja o último adeus
seja o último adeus
De mim?
Não quero que ele tenha nada
além do amor, guardado em brasas,
sempre em casa
pra você.
Hugo César
pra você.
Hugo César
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Visita
Mal dormi
cuidei da casa
disse a mãe que era domingo
gostaria de um jantar
com o prato mais bonito
e o faqueiro prateado
que pai comprou dividido
em abril de 85
em abril de 85
de presente, pra te dar
Me lembrei da passadeira
de babado mais florido
Pus na goma com cuidado;
Pus na mesa, ficou lindo!
Só me falta esse cabelo:
trança ou qualquer penteado...
No espelho pequeno do quarto,
No espelho pequeno do quarto,
nervosa, não me decido
E já está quase na hora
Minha mãe me dá conselhos
borrifando flor do campo
borrifando flor do campo
engomando o meu vestido
Diz que é pra eu ficar mais calma:
- Nessa vida tudo passa
- Também já passei por isso
Mas, pra mim, é novidade
É natal quando ele chega
Quero ser toda surpresa
Quero ser toda surpresa
Não sei bem o que falar
É domingo dos namorados
É festa na minha cidade
Meu amor vem me visitar.
Hugo César
Hugo César
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Fuga
Vai coração aprendiz
labuta como estes outros
a fim de menos meu;
passeia por outras mãos
se livra desse desgosto
foge deste peito breu
Se abre sem medo do escuro
se passe um pouco por flor;
arrisca em jogar-se na vida
no peito de um outro ator
arrisca em mostrar-se pro céu.
Embora, com pouco de cor;
Embora, com gosto de fel.
Floresça por outros terrenos
Aqui, de doer, pereceu.
Hugo César
Hugo César
domingo, 25 de março de 2012
Ao avesso
![]() |
| Arte de Elifas Andreato |
Se possível de cor clara
Engole o choro de uma vez
Sem deixar cair uma lágrima
Deixa as mágoas no espelho
Não te servirão de nada
Vê a fila como cresce
Depois que sol se desfaz
Vê os olhos e as mãos que te esperam
Com fome de riso e de mais
Toca a lona de luz negra
Entra em cena, sem demora
Não demonstra o desabafo
Do teu macacão brilhante
Sobre um coração andrajo
Que de dia também chora
Tal qual o palhaço em serviço
As moças da noite em pedágios
À custa de um sorriso avesso
Irmãos de vida e de palco
E apesar do desespero
Não expõem estardalhaço
Não tiram dos donos da festa
O prazer demasiado.
Hugo César
Hugo César
domingo, 13 de novembro de 2011
Cine - Theatro Finado ( um réquiem ao Capitólio )
| fotografia do capitólio, tirada por mim |
Vizinho do semáforo
Fechado
Plantado na calçada
Vermelho
Como um batom borrado
Num corpo
De braços cruzados
Plantado na calçada
Vermelho
Como um batom borrado
Num corpo
De braços cruzados
E opaco letreiro
Estátua de rua
Manchada
Estátua de rua
Manchada
Como a prostituta
Vadia
De pernas doentes
Plantadas
Vadia
De pernas doentes
Plantadas
Dançando sem mais melodia
Parasita no tempo
E no espaço
Tanto esquecimento
Embutido
Nas bordas do seu epitáfio
Na tinta do muro caindo.
Na tinta do muro caindo.
Hugo César
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